#RELATO.
As pedras nos petos.
O primeiro dia a mestra nova dixo que na escola só se podia falar castelám. Dixo sorrindo: “Niños, en la escuela no se habla gallego”.
Por isso aquele neno botou várias horas em silêncio e quando começou a falar falava baixinho e mui perto das orelhas dos amigos.
Mas o segundo dia a professora escuitou-no dizer “vímbio” e berrou “Acabo de escuchar una palabra en gallego” e foi ao armário e colheu umha pedra dum caixóm cheio de pedras. Era umha pedra nem grande nem pequena. “Vem aqui”, dixo. E meteu-lhe a pedra no peto esquerdo do pantalóm a aquele neno.
O neno sentiu a pedra contra a coxa. A pedra nom pessava muito nem pouco. E esse dia voltou ficar em silêncio, nom fossem escapar-lhe mais palavras.
Mas o terceiro dia, nada mais entrar, a mestra meteu-lhe cinco pedras nos petos, por cinco palavras que dixera fora sem dar-se conta. E antes do mediodia já tinha quatro mais e daquela dixo-lhe a mestra que saísse à pizarra. Aquele neno ergueu-se com as maos termando do pantalóm pola cintura, o pantalóm cheio de pedras nos petos.
A mestra dixo-lhe que escrevisse o seu nome e estricou a mao com um giz. E quando aquele neno botou a mao ao giz, o pantalóm caiu-lhe dum lado deixando à vista os calçons. Naquel momento, escuitou às suas costas as gargalhadas de todos os nenos e nenas e mais da mestra a se burlar.
Ao dia seguinte aquele neno traia umha corda amarrando o pantalóm. E as pedras voltarom encher os seus petos. Era incómodo caminhar e nom podia botar carreiras com as outras crianças. As pedras pessavam muito. Um dia chegou a carregar com doce pedras, ao seguinte, dez, e ao seguinte, sete. E despois, forom cinco palavras em galego, e logo quatro e ao seguinte conseguiu deixar de falar a sua língua e sentiu os petos vacios e sentiu-se ligeiro e livre do pesso das pedras.
Mas aquilo nunca o esqueceu. A tortura, a crueldade, a humilhaçom. O peso das pedras nos petos acompanhou sempre aquela criança que hoje é um home maior com boa memória. Às vezes aínda tenho a sensaçom de ter os petos cheios de pedras, dize.
E porque há cousas da memória que há que compartir, aquele neno que hoje é um home maior às vezes conta a história das pedras nos petos, quando sente que é necessário. E um dia contou-lha a Brais, o seu sobrinho.
E um dia Brais ergueu o braço na escola, quando o mestre estava a falar da história da língua, e dixo: “Ao meu tio metiam-lhe pedras no peto quando falava galego na escola”.
E agora, graças a Brais e à memória daquele neno que nunca esqueceu, agora tu estás a ler esta história de palavras que pessavam como pedras nos petos dumha criança.
Um relato inspirado numha história real.
Sechu Sende.

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